"Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". (João 16.33)

Fogaréu

Bem no meio da Bíblia, há uma coleção de poemas de amor hebraicos muito explícitos e eróticos que jovens rapazes judeus não tem permissão de ler até terem mais idade. O Cântico dos Cânticos nos dá uma série de imagens do relacionamento entre homem e mulher. A alegria, o conflito, a perplexidade. É como se o amor que esse casal explora tivesse uma vida própria.

A mulher diz várias vezes:

“Não acordeis nem desperteis o amor até que ele o queira.”

É como se ela dissesse:

“Seja o que for, é tão bom, é tão lindo, não podemos fazer nada para estragá-lo.”

Nós usamos e abusamos dessa velha palavra “amor“. Não é? Nós dizemos que amamos uma pessoa, e logo depois falamos de como amamos um carro novo ou um certo par de calças. Afinal, eu amo a minha esposa. E eu também amo pastéis? Mas temos de lembrar que o Cântico dos Cânticos foi escrito originalmente em hebraico, que tem três palavras pelo menos que correspondem ao nosso “amor”.

A primeira é a palavra raya.

Raya se traduz literalmente como amigo ou companheiro, alguém que lhe faz companhia. Pode até ser tradizdo como o termo alma gêmea. As pessoas falam disso o tempo todo. E dizem coisas como: “Ela é minha melhor amiga” ou “Posso contar tudo para ele“. Estas são expressões de raya. Então vemos que no núcleo da relação entre esses amantes há uma amizade.

Outra palavra hebraica usada para “amor” é ahava.

Ahava é um afeto profundo, o desejo de estar tanto com alguém que dói no seu coração. Ahava é quando sua mente e seu coração se voltam para o seu amante com tal paixão e intesidade que você não pensa em mais nada. Minha esposa e eu fomos amigos por quatro anos, quatros anos de raya, antes que algo mais acontecesse. Eu morava em Salvador, e ela veio me visitar num fim de semana. Nós saímos pela primeira vez. Havia uma sensação de expectativa no ar, devido à nossa curiosidade. Sabe, “Será que há ahava para complementar nosso raya?“. Lembro-me de estar sentado no restaurante em Salvador a alguns quarteirões do mar. E senti a sensação de que eu preferia estar ali com ela naquele momento a estar em qualquer outro lugar do universo. Os amantes afirmam no Cântico dos Cânticos que ahava é forte como a morte, que muitas águas não podem apagar o ahava. Ahava é o amor da determinação. É muito mais profundo que sentimentos românticos fugazes. É muito mais que anseios temporários. Ahava é tomar a decisão de unir a sua vida à de outro. Essa é uma emoção que leva ao compromisso, que o leva a unir a sua vida à vida de outra pessoa. Ahava é o que faz tudo perdurar.

Talvez isso o ajude a pensar melhor.

Vamos pensar nesses amores, nessas dimensões do relacionamento, como chamas. Fogo. Isso mesmo.

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Primeiro tivemos a chama do raya. É como a amizade, o aspecto da alma gêmea na relação. Depois vem a chama do ahava, que é a chama do compromisso e da decisão de unir suas vidas. Mas há uma terceira palavra hebraica para amor no Cântico dos Cânticos.

É a palavra dod.

Dod pode ser traduzido literalmente como “farrear, abalar, ou ameigar”. Acho que entendem o conceito dessa chama. É usada em várias partes das Escrituras. Em Provérbios está escrito: “Vem, saciemos-nos de amores até pela manhã.”. A mulher diz no Cântico dos Cânticos: “Beije-me ele com os beijos da sua boca porque melhor é o seu amor do que o vinho“. Dod é o elemento físico e sexual de um relacionamento. É de onde tiramos a palavra grega Eros que é traduzida literalmente como “erótica”.

Então temos a nossa chama de raya. Temos a nossa chama de ahava. E temos a nossa chama de dod.

E no encontro desse homem e dessa mulher, todas essas chamas são combinadas.

Jesus fala dessa ideia de seres se encontrando. Ele usa o termo “uma só carne” para descrever essa conexão entre homem e mulher. Mas essa carne é muito mais que um simples ato físico. É emoção. São os corações. São as mentes e experiências. É a mistura das almas. Então essa reunião física torna-se uma imagem de uma profunda realidade espiritual. Jesus nos ensina que o sexo é um ato espiritual, e que algo tão lindo, algo tão poderoso, destina-se a perdurar para sempre.

Sabe, uma chama queimando solitária nunca será tão quente quanto todas as chamas queimando juntas. Afinal, fomos criados para queimar todas as chamas juntas. E pense em todas as formas em que estragamos isso. Por exemplo, pense em um caso amoroso. Um caso são duas pessoas compartilhando da chama do dod, mas sem as outras chamas, sem o raya nem o ahava. Não há amizade. Não há compromisso. Não há lealdade nem sacrifício. Há o dod mas não há raya nem ahava. São duas pessoas tentando só com as chamas de dod conseguir todo o calor das três chamas juntas. Não me surpreende que a pessa sinta-se vazia e insatisfeita. Fomos criados para muito mais. Então a pessoa retorna para essa única chama repetidamente, sem nunca ficar satisfeita.

Não pode.

E que tal um casal que está casado há anos, e ainda estão juntos, ainda há compromisso, ainda há um certo ahava, mas, honestamente, não há nada mais? Não há amizade. Não há sexo. E eles negligenciam as chamas que finalmente tremeluzem e enfraquecem, até apagar.

Ao separar as chamas, nunca se alcança a satisfação. É como viver fora do plano que Deus criou para sua vida. Talvez a nossa cultura não tenha ideia do que é a verdadeira sexualidade, talvez o mundo ao nosso redor, no que se trata de sexo, esteja completamente por fora. Afinal, a verdadeira sexualidade é vasta e misteriosa. Envolve você como um todo. Você tem corpo, também tem alma e espírito. Amor é o encontro das almas e dando tudo de si para o outro.

Que você honre a maneira como Deus o criou. Que você tenha um respeito profundo pelo fato de ser um ente espiritual, e de que amor é no fundo algo espiritual também. Que você descubra que as três chamas foram feitas para queimar juntas. E que você descubra… o fogaréu.

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Comentários a: "Fogaréu" (1)

  1. Nossa! Vc é romântico…

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